Quando vale o seu voto?
Leis, educação e
consciência política combatem a venda de votos
Por Natalia Arend *
Em 28 setembro de 1999, foi aprovada
a criação da Lei 9840 que previa a punição mais rigorosa a quem oferecer,
prometer ou entregar bem ou vantagem pessoal em troca de votos para cargos
eletivos. Essa lei entrou em rigor para combater um mau quase cultural nas
eleições brasileiras. A partir do momento em que um candidato ou eleitor
negocia o voto em troca de qualquer tipo de vantagem ou benefício, está movimentando
um sistema de corrupção onde o maior lesado é a sociedade. Um voto mal dado
reflete na sociedade como um todo, além de levar pessoas corruptas e mal
preparadas para ocupar cargos púbicos.
O contabilista, acadêmico de Direito
na Católica de Santa Catarina Marco Piva, acredita que a falta de conhecimento
político, cultura, educação, contribui para que o voto seja tão desvalorizado.
“Isso leva a alienação, ao desinteresse e quase a um estado selvagem da
população que trabalha para sobreviver, depois para ter alguma coisa material,
não se importando se o político eleito, que por sinal ele elegeu, vai roubar, negligenciar
a saúde, a educação, a infraestrutura necessária para criar empregos hoje e
amanhã. Daí, essa fatia da população não
vai se importar com o voto, exceto no momento em que lhe oferecem algo em troca
e ai vê a oportunidade de “ganhar” algo com isso. Na verdade, é justamente ai
que ele está perdendo”, explica .
O esquema de compra de votos pode ser
classificado como Corrupção Ativa, quando o candidato dá ou oferece algum tipo
de vantagem, ou Corrupção Passiva, quando o eleitor solicita algum benefício em
troca da promessa do voto. A simples oferta ou solicitação de vantagem já
constitui crime. Conforme está previsto no artigo 299 do Código Eleitoral Brasileiro,
qualquer pessoa que der, prometer, ou oferecer, benefícios, ou qualquer outra vantagem, para
obter ou dar voto e para conseguir ou prometer abstenção, ainda que a oferta
não seja aceita está sujeito a pena de reclusão de até 4 anos e pagamento de
cinco a 15 dias multa.
Em caso de denúncias o eleitor pode
procurar o Ministério Público Eleitoral (MPE) ou a Polícia Federal para fazer o
relato do caso. Depois que a denúncia, que pode ser feira de forma anônima, é
formalizada é feita uma investigação para o recolhimento de provas. Os
candidatos também podem fazer denúncias de outros candidatos e de eleitores que
fazem propostas em troca do voto.
Educação Política
A Lei 9840/1999, desde que foi
implantada, qualificou o processo político no país, mas a educação e o ativismo
político do brasileiro podem ser melhorados para que a sociedade passe a ver o
voto como instrumento de mudança social. Piva acredita que antes de oficializar
o voto, o cidadão precisa desenvolver uma educação política. “Antes
do voto há uma necessidade mais urgente, a conscientização pela educação que
levará o cidadão a participar da vida política do país, a começar pela sua
comunidade. É assim que evitamos que os maus políticos ocupem os cargos que
ocupam hoje. Participando ativamente nos partidos, sejam eles quais forem,
evitaremos a participação dos maus políticos. Em segundo lugar, vem o voto
propriamente dito. Nas eleições, escolhemos os mais capacitados a atuarem,
nos projetos e não nas pessoas. Exigir de cada candidato um projeto e cobrar,
caso eleito, que se cumpra o projeto. Parece utópico, mas não é, depende de
conscientização, que vem pela educação”,pontua.
A consciência política se forma com o tempo e se da
com a educação e a clareza política de cada um. Vários fatores contribuem para
que uma pessoa conheça o processo político que acontece no ambiente em que
vive, seja o bairro onde mora ou o país. Marco Piva, acredita em uma combinação
de fatores, que envolve a educação familiar, a
educação formal, a vivência em partidos e na comunidade para a
construção de uma consciência política. “Além da educação familiar, a educação
escolar, por pior que seja sua qualidade, nos dá um horizonte maior e melhor
entendimento da vida. A partir daí, a vivência política dentro dos partidos, a
partir das comunidades, nos dará a experiência necessária para uma formação
política suficiente para resolvermos todos nossos problemas sociais. Elegeremos
os administradores e legisladores corretos e adequados às nossas necessidades. Os sonhados políticos
honestos e competentes, que são pessoas pinçadas da sociedade, que nós mesmos
escolhemos”, comenta ele.
Consciência e Ativismo
Depois que o povo desenvolve a
sua consciência política, fica mais fácil exercer uma postura ativista. Conhecendo
a organização da política e a dimensão dos direitos da sociedade, a população
perde o pudor em falar em política e passa a ver os governantes como
representantes públicos que tem o dever de trabalhar pela população e quando
não cumprem o que se comprometem a fazer podem ser afastados do poder que a
população concedeu. Uma sociedade que consegue enxergar o voto como um
instrumento de tal transformação anão negocia a sua condição de eleitor.
* Matéria a ser publicada no jornal Folha SC de Jaraguá do Sul/SC
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