O ESQUDRO, O COMPASSO E O LIVRO DA LEI NO RITO MODERNO
O símbolo maçônico por excelência, que, quando se fala em Maçonaria ao
mundo profano, vem à mente, é o famoso Esquadro sobre o Compasso, com a letra G,
ou, sobre um livro, que geralmente, se entende, ser a Bíblia.
Sim, a maioria dos ritos maçônicos utilizam a Bíblia sob o Esquadro e
Compasso, como Livro da Lei Moral Maçônica, ou, a moral imposta pelas
religiões, como era no passado, na Idade Média, quando se concebeu a Maçonaria
dos Operativos, os pedreiros construtores de grandes obras da engenharia.
Nos ritos teístas, entende-se que a Bíblia simboliza a lei moral,
porque elas estavam representadas nas Antigas Obrigações das corporações desses
pedreiros, daí manter a tradição de ter esse Livro como lei moral e adotar, já
no período especulativo, a nomenclatura Grande Arquiteto do Universo (ou
Supremo), para designar qualquer tipo de divindade que o ser humano pudesse
conceber, se tornando assim, a Maçonaria, um Centro de União dos homens de boa
vontade, independentemente de suas crenças, raças, preferencias, etc. Claro que
se tratavam de religiões monoteístas, algumas cristãs, outras não, como a
religião muçulmana.
O Rito Francês ou Moderno, influenciado fortemente pelos iluministas,
movimento que afastava das decisões políticas e sociais das convicções religiosas,
esotéricas, preferiu guardar a tradição mais pura dos Modernos, fundadores da
Primeira Grande Loja de Londres de 1717 e ter como livro da Lei Maçônica, ou da
moral maçônica, por neutralidade e racionalidade, a Constituição dos Maçons
Livres e Aceitos, escrita e adotada em 1723, na Premier Grand Lodge, compilada
das antigas Obrigações dos construtores, pelo pastor James Anderson.
Ao colocar como livro da ei Maçônica a Bíblia, entende, o rito Francês
Moderno, que abandonamos qualquer isenção e adotamos uma linha de pensamento
religiosa, mística, que é discutível, contestável, controversa, e, ainda que se
diga que seja “apenas um símbolo”, é, na verdade, um dos principais símbolos da
Maçonaria, uma das três Grandes Luzes da Ordem maçônica, portanto, não é um
mero símbolo de chaveiro. O Livro da Lei, é o orientador moral do povo
maçônico, não um adorno no templo, a sua orientação moral, deve ser seguida
pelos que ali a colocam como a linha mestra filosófica dos membros da Loja.
Ao adotá-lo, presume-se que se siga o pensamento ali registrado
naquelas páginas, aquela filosofia, no caso da Bíblia, judaico-cristã, duas
religiões abraâmicas que dividem aquele livro. As demais crenças ficam fora e a
proposta da Maçonaria original, não era essa, ao contrário, era de se tornar um
Centro de União de pensamentos religiosos e até políticos/sociais diferentes,
mas que congregavam os homens em uma instituição de progresso humano, racional
e pacífico. Já se sabia que as religiões mais afastam os homens do que os unem,
que elas mais matam do que protegem seus adeptos. A Razão e a Ciência, ao
contrário, reúnem os homens em busca do progresso humano.
Todavia, a influência religiosa sempre foi muito forte, por ter
interesses autoritários por trás, por explorar a ignorância das massas, amedrontando-os
e subjugando-os pelo pavor do “inferno” ou pela “salvação eterna”, e isso a
história nos mostra em seus livros, por todo o planeta em todas as épocas. A
religião é movida pela paixão humana, por uma crença, nunca por uma certeza
cientifica, não há como alguém ter o domínio desta Verdade. Por isso, crenças
devem ser reservadas ao indivíduo, não ao coletivo.
O Rito Moderno ou Francês, movido pela Razão que o lastreia, e isso
desde a Grande Loja de Londres, por ser um dos seus poucos e fiéis seguidores,
posicionou-se, principalmente a partir de 1877, como racional e afastado das
posições dogmáticas (crenças), respeitando a liberdade de consciência de cada
cidadão, de cada adepto da Maçonaria. Adotou como livro da Lei, então, a
tradicional, Constituição de Anderson. A Maçonaria não foi desenvolvida para
ser mais uma religião, ou bloco de apoio ao Cristianismo ou coisa que o valha,
ela foi constituída para o desenvolvimento humano, pela Razão, pela prática das
virtudes e combate aos vícios morais, independente daquilo que eu ou você
credita. Um Centro de União realmente. O que importa é o que construímos de
positivo na sociedade, nosso fim, é a Humanidade.
O Esquadro, aposto sobre o Compasso, símbolo da Retidão e do Direito,
nos mostra o comportamento racional e honesto que devemos ter para conosco
mesmo, para com nossos irmãos e para a com a Humanidade. Simboliza ali, naquele
conjunto, a prevalência da Razão que nos conduz ao trabalho do aprendiz, sobre
Inteligência libertária, a Consciência Livre do Mestrado, porque ainda estamos,
no primeiro grau, caminhando com dificuldades, ainda não temos a Luz, temos que
nos servir da Razão e não das paixões para sairmos daquele estágio. Despidos dos vícios, aprenderemos com maior
facilidade o valor das Virtudes e chegaremos ao equilíbrio do Companheiro,
antes de, finalmente, chegarmos à plenitude do mestre maçom, o construtor por
excelência, que planeja e dirige a grande obra.
O Compasso, símbolo da Justiça, dos limites que podemos alcançar sem
avançar no direito alheio, está ainda contido pela nossa pedra bruta que está
sendo desbastada. Ao terminar essa tarefa, o Compasso terá mais utilidade no
trabalho de esquadrinhar e alinhar a pedra na obra, ai o companheiro, mais equilibrado,
se tornará o trabalhador ideal.
O livro da Lei maçônica é um símbolo importante, é o registro das
obrigações do construtor. Ele ensia que o pedreiro deverá cumprir suas
obrigações, seguir as leis, amar e defender seus irmãos, os companheiros que o
aceitaram na confraria, que deverá lutar pelos interesses da Ordem e da
humanidade. E mais, que deverá ser um exemplo e pouco importa sua crença ou
religião, mas que seja um construtor da sociedade.
Ao chegar ao mestrado, o Compasso deverá se sobrepor ao Esquadro,
porque atingida a Luz, o Maçom perseverante, com o bom uso da Razão, supera a
paixão, os vícios e se torna sábio. A Justiça será seu norte em todos os seus
julgamentos e atitudes, o equilibro o levará a essa prática, honrando o avental
que utiliza.
Marco Piva
VM
08 / 2021
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