DEBATES NAS REDES SOCIAIS
Janeiro de 2019.
Nesses tempos avassaladores de redes sociais, onde teorias são
vencidas pelas opiniões, pesquisas são desmentidas, e verdades reconstruídas a
cada segundo, tomo a liberdade de emitir uma opinião, a princípio, fora dos
bate-papos do Whatsapp, para onde a Maçonaria parece ter se mudado em definitivo,
ou até que outro tipo de comunicação venha substituí-lo.
Primeiro, esses debates, em alguns casos, alguns desses grupos, se
tornaram tão dinâmicos que fugiram do controle, e estão se perdendo em assuntos
outros, desvios, por diversas razões. Segundo, o numero exagerado de
componentes, onde muitos estão participando só para não ficarem fora da turma,
outros querem teclar algo, mesmo que seja bobagem, só para dizerem que “estou
aqui, ativo”. Outros querem produzir algo útil, mas são interrompidos por
assuntos cruzados e, ao fim, ninguém entende mais ninguém. Claro que falta certa agilidade mental para
alguns, talvez me encaixe nesse grupo, mas toda minha experiência é absorvida
pela falta de sincronia com cerca de 200 integrantes de um grupo.
Pertenço a cerca de 10 grupos com mais de cem irmãos. Alguns temas são
de relevante importância para serem massacrados em redes sociais, onde, em
primeiro lugar, não há o mínimo de segurança, e vemos irmãos postarem rituais e
“ensinamentos” a torto e direito, sem a menor cerimônia, esquecendo seus “malditos”
juramentos ou compromissos de não divulgar, traçar, imprimir, etc. Enviar “in box”,
ou seja, no privativo, ainda vá lá, mas redes sociais são facilmente acessadas
por qualquer pessoa que tenha acesso ao telefone, de onde 99,9% acessam essas
redes.
O e-mail, me parece, pode ser mais seguro e tem maior espaço para
tecer opiniões fundamentadas e por muito tempo, os grupos de e-mail
proporcionaram ótimos debates nos anos 90 e 2000. Agora, mensagens mais curtas
são obrigatórias e, portanto, mancas, sem fundamentação, geralmente.
Mas agora ficou difícil reverter, o que se pode fazer é evitar debates
ou sair dos grupos, ou ainda, ficar olhando apenas, o que, para mim, é difícil.
Um dos assuntos que permearam grupos, dois, ao mesmo tempo, composto
pelas mesmas personagens, tratavam de origens da Maçonaria e coisas parecidas.
Um dos irmãos, um Mestre a quem muito respeito, afirma que a Maçonaria é uma “invenção
dos ingleses”, em suas palavras, e, por extensão, tudo que não for igual ao que
é pregado pela GLUI, não é Maçonaria.
Ouso discordar, com todo o respeito. Primeiro, a Maçonaria não foi
inventada pelos ingleses, foi organizada por eles, porque sempre tiveram o
hábito da organização, desde João Sem Terra. Botaram ordem na casa e fizeram o
que chamamos de a primeira Constituição, ou seja, colocaram ordem no caos.
Nisso são bons e sempre seguiram as suas tradições, como essa. Deus no céu, a rainha, ou o rei, na terra,
desde que regada a um bom scotch e
purê de batatas.
Mas a Maçonaria tinha um objetivo ao ser organizada, a especulativa,
como chamamos, nem vamos entrar no mérito da operativa ou da transformação de
uma para outra, que é muito questionada, mas ninguém tem, realmente a fórmula
da verdadeira formação da atual Maçonaria.
A Maçonaria moderna, desde que organizada tinha, visto suas
constituições (estatutos), de 1723, escrita por encomenda pelo pastor James Anderson,
o propósito de reformulação do homem pelo estudo do simbolismo atribuído aos
objetos, às ferramentas, dos pedreiros operativos, que estavam em franca
decadência. Com essa reformulação interna, o homem deveria reconstruir a
sociedade, moral e intelectualmente, a fim de manter uma qualidade de vida
ideal e sempre melhorando, progressivamente. Suas principais “lutas” deveriam
ser contra o obscurantismo, o despotismo, a ignorância, o fanatismo e a
superstição.
Vejam ai que as religiões já eram colocadas em cheque e, desde então,
começaram os ranços de algumas delas, religiões não sobrevivem sem dogmas, sem
superstição, sem fanatismo. Nenhuma delas. Todas exigem uma credulidade
inquestionável, em maior ou menos nível, pelo menos as principais religiões
ocidentais e do médio oriente, ou seja, as abraâmicas, não ocorrendo o mesmo nas
orientais, necessariamente.
Mas, em pouco tempo a Grande Loja de Londres, dos chamados “modernos”
foi suplantada pelos “antigos”, que se diziam seguidores da tradição dos pedreiros
e formaram a Grande Loja de York. Esses trouxeram outra visão de maçonaria,
tradicional, religiosa, um tanto esotérica, que foi para suas colônias e, nos
EUA, se tornou ainda mais mística e religiosa. Vriaram graus para ritos que nem
praticavam no simbolismo, o REAA, dando um caráter cristão ao rito, que muitos
maçons confundem com a própria Maçonaria. Acham que o REAA é a verdadeira
Maçonaria. Não é bem assim.
A Maçonaria foi organizada como uma ideia, um simbolismo com objetivo,
como mencionado acima, formar homens cultos e de bons costumes para darem
exemplos à sociedade e assim a constituírem da melhor forma, pacifica,
humanitária, livre, fraterna, enfim, aquela ideal para todos que não vivem na barbárie.
Ao ir para a França, pouco tempo depois de sua criação, encontrou
outra cultura, outra visão das pessoas, posto que Paris era a capital do mundo
e não Nova Iorque ou Londres como muitos possam pensar. Para ali convergiam
cientistas, artistas, literatos, pensadores do mundo todo. Procuravam o progresso
que a França representava, a liberdade já buscada por parte significativa da
sociedade que culminaria em 1789 com a revolução e a famosa queda da Bastilha.
Nenhuma surpresa em se compreender que a Maçonaria sofreria essas
influencias de religiosos, místicos, como os cabalistas, rosacruzes, os adeptos
aos mistérios egípcios, alquimistas, enfim, uma gama de influenciadores que, ao
contrário dos conservadores, embora criativos, ingleses que pensavam muito, mas
não saiam de suas paralelas, como bons conservadores. Muitos ritos foram
criados, enquanto os ingleses nem admitem falar em rito, somente em Ofício, em
função dos diversos conhecimentos desses influenciadores de toda a parte do
mundo. Chegou-se a computar mais de duzentos deles em determinada época,
sabendo que hoje sobrevivem cerca de 50, muitos nacionais, ou seja, praticados
somente em um país, como o rito Brasileiro, uma variação do REAA.
Então, apontando para uma conclusão, não podemos encarar facilmente a
ideia que Maçonaria seja apenas a que os ingleses praticam ou que ela
reconhece. Isso é muita arrogância e desprezo pela criatividade e avanço da “ciência”
da Maçonaria, boicotando as possibilidades de estender o simbolismo de acordo
com sua cultura e costumes, todavia, o objetivo, a finalidade dela, nunca foi
adulterada.
A Maçonaria, em qualquer rito, em qualquer país, praticada por homens
ou mulheres, tem o mesmo objetivo, o avanço intelectual e moral do cidadão, sua
participação como construtor social e tudo aquilo que sabemos, ou deveríamos
saber.
A maçonaria é universal, por isso na tem dono, muito menos fórmula
desenhada, mesmo que os britânicos assim pensem e, devo dizer, me assustei com
o baixo nível da maçonaria daquele reino, com as entrevistas proporcionadas em
uma série apresentada na Netflix. Homens todo enfeitados, cheios de balangandãs
e roupas pitorescas, embora mereçam, repito, respeito pela sua organização e
tradição, sem o mínimo de conhecimento sobre história e sobre Maçonaria de
outros países, que eles, literalmente desprezam. Mostra uma pequenez imensa de pensamento,
um excesso de orgulho por uma tradição inútil se não aplicada na sociedade, que
só serve para dar cheques aos Bombeiros e instituições de caridade, o que é ótimo
por um lado, mas não precisaria existir só para isso. Um maçom que não sabe da importância
da Revolução Francesa para a história do mundo e da eventual participação da Maçonaria
nela, não deveria usar o avental de Mestre.
Então, a Maçonaria, como qualquer outra instituição formada por livres
pensadores (aqueles que não são escravos ideológicos, que pensam por si,
baseados no conhecimento, nos estudos, nas suas pesquisas), e a considero
adogmática, para não se pegar em dogmas, permitindo, como prega o rito Francês
Moderno, a continuada perseguição da Verdade (o dogma interrompe a busca pela
Verdade), não pode estacionar em uma regra estabelecida por alguns homens,
alguns dirigentes de uma obediência maçônica, sabe-se lá em que circunstâncias,
principalmente para divergir da Maçonaria de um país que sempre foi considerado
rival, muitas vezes inimigo.
A Maçonaria que tem as bases estabelecidas, respeitando as tradições iniciáticas
dos três graus simbólicos, e que tem por objetivo a construção interna do
individuo, e consequente construção ideal de sociedade, o que não considero
dogmas, mas diretrizes que fundamentam a Instituição, é Maçonaria, seja ela
praticada, como já afirmado, por homens, mulheres, homossexuais, negros,
amarelos, etc. O objetivo é o que importa: o progresso humano.
Aos conservadores que sentam sobre seus conceitos, que não se permitem
pensaram refletir sobre a evolução do ser humano, e, aliás, nem são seus
conceitos, são de terceiros, desconhecidos, que nem sabem seus nomes e
endereços, minha piedade, pois terão que voltar a essa vida de sofrimento várias
vezes (me perdoem o dogma).
Fraternalmente.
Marco Piva, MI, 9
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